31 de maio de 2010

A MENINA QUE RI

Era uma vez uma menina
que gostava de gostar de todos,
digo, de tudo.
A menina sorria pra todos,
digo, pra tudo.
A menina se encantava por todos,
digo, por tudo.
E a menina esperava de todos,
digo, por tudo.

Um dia, a menina arregalou os olhos
e olhou de susto.
E viu que era sozinha.
Mesmo sempre estando ao redor de todos,
digo, de tudo.
E o olho da menina chorou.
Chorou pela falta de todos,
digo, de tudo.

Foi então que a luz do sol
secou o choro do canto do olho da menina.
E ela aprendeu a sorrir sozinha.
Sorrir pro espelho, sorrir pro vento e sorrir pra si.
Mesmo sabendo
que não tinha ninguém ao redor dali.

Hoje ela é a menina que ri.
Que ri de todos, digo, de tudo.
Que ri dos outros,
que pensavam que ela era tão boba
que não via que eles não estavam ali. ■

21 de maio de 2010

FELICIDADE É LUTA

“Perguntei à minha vida :
- Como achar a apetecida felicidade absoluta ?
E um eco me disse :
- Luta !”

(Guilherme de Almeida)

Decididamente, viver não é lá bem fácil. Digo viver bem ou bem viver a vida é tarefa diária, árdua, complexa. Escolher ser feliz é uma opção que custa tempo, dedicação e perseverança.

Aos preguiçosos, que sequer se animam a tentar, parece que a felicidade alheia é dádiva divina ou meramente questão de sorte. Discordo desse conceito superficial e reducionista. A coisa não é bem assim... Ser feliz dá trabalho. É preciso coragem e empenho para procurar e encontrar a tal da felicidade. Gostei desse pensamento acima, que me cativou hoje na página de um livro. Verdade absoluta ou não, concordo com o poeta. É mais mangas arregaçadas e suor no rosto que plim-plim de varinha de condão.

Não sei se dona genética é completamente responsável pelo desejo de buscar o bem-estar consigo e pela disposição em lutar para ser feliz. Vemos tantas histórias contraditórias por aí. De gente que tem “tudo” pra ser feliz e não é; e de outros tantos que nem deveriam esboçar sorrisos e são realizados em ser quem são. Não falo de conformismo, de mero contentamento por si só. Falo de aceitação da realidade e de esperança sadia e empenho para se chegar onde se quer chegar e ser quem se pretende ser.

Gosto muito daquela máxima popular de que “o importante não é fazer o que gosta, mas gostar do que faz”. Planos todos fazemos. Uns se cumprem e outros não. Desejos todos temos. Uns realizamos e outros tantos não. Deve estar aí a chave: bem viver como se vive. Apesar das pedras na estrada, da poeira que embaça a visão, das pernas fatigadas pela jornada.

Penso que ninguém é feliz nem por completo nem por acaso; tampouco completa e irremediavelmente destinado a ser infeliz. Creio que há luz a brilhar sobre cada um de nós. Acredito que é preciso e mais revigorante se esforçar para enxergar luminosidade, ainda que precária, sobre as trevas. Sempre há pelo menos um motivo a ser elegido para recomeçar e continuar a caminhada. Mesmo sabendo que dá trabalho. Mesmo sabendo que não é fácil... ■

13 de maio de 2010

SAUDADE PRO CORAÇÃO

Um médico que cuida também da alma ?
Sim, e uma alma que alegra o coração.

Um coração que pulsa o minuto seguinte.
Um minuto que é transformado em eternidade.

Uma eternidade que cabe no dia de hoje.
E um hoje que começa ontem e se estende até amanhã.

Um amanhã que traduz a infinitude da beleza do agora.

E agora?
Agora fica a saudade.

Saudade que alimenta a esperança do encontro, da certeza do sim.
Sim, pra mim.

Pra mim, nós na vida.
Pra vida, pra sempre.

Sempre vale a pena.
Sempre... ■

11 de maio de 2010

O RITMO DA VIDA

“O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem!”.

(Guimarães Rosa)


Assim, o maior desafio a ser vencido todos os dias é descobrir qual é o ritmo da vida que está proposto pra nós e entrar nesse ritmo. Acelerar-se demais faz com que a fadiga nos consuma e ofusque a beleza do momento presente. Atrasar-se demais faz com que a vida passe diante dos nossos olhos e não sejamos capazes de acompanhar o ciclo do hoje, o mover desse instante.

E para dar conta de tanto ir e vir, em ritmos tão diferentes ? É encher o peito de ar, erguer a cabeça e sussurrar aos próprios ouvidos, ao som dos ventos:
"Menina, coragem !". ■

28 de abril de 2010

O MUNDO É DOS ESPERTOS

Desde criança sempre escuto que “o mundo é dos mais espertos”. De uns tempos pra cá, estou assustada com a popularidade dessa frase. Nem me refiro a outros setores da vida. Fica minha queixa-desabafo simplesmente limitada à esfera profissional. E qualquer semelhança não é mera coincidência: se também acontece com você fico mais acompanhada nesse grito silencioso contra tanta demonstração explícita de ‘esperteza’ ao redor. Ah, e nem sou tão mais poupada de espertos à solta por não trabalhar fora, além dos limites da porta de casa. É verdade que nem posso me queixar da esperteza dos colegas de trabalho, pois não os tenho (risos), mas não me faltam representantes da espécie na padaria, no shopping, na farmácia e afins.

Tenho uma tese de que não se mede um serviço pela sua suposta importância ou falta dela. Afinal, tudo tem importância, tudo é necessário. Depende apenas dos olhos de quem vê. Como diz o poeta, “tudo vale à pena, se a alma não é pequena.” É isso. O problema deve estar no tamanho da alma das pessoas que se julgam tão espertas. A alma delas é tão pequena que sequer enxergam a grandeza de ser na pequenez, na simplicidade da vida.

É curioso porque essas pessoas que não dão importância ao ofício que exercem, geralmente sonham muito alto. Ou melhor, sonhar é para almas nobres, elas, sim, cobiçam muito alto. Daí não enxergam a imensidão de possibilidades ao redor. Açougueiro, diarista, pintor ? Profissões sem status social, pouca possibilidade de ascensão. Por isso, temos carnes mal cortadas, casas mal limpas e paredes mal pintadas. Será ? Penso de outro jeito. Sei que a mola, digo, a moeda do mundo é o dinheiro, o pagamento pelo serviço, pois todos temos dívidas a quitar. Penso que a qualidade na prestação dos serviços é uma responsabilidade que nada tem a ver com a natureza do tal. O bom profissional é bom naquilo que faz. O bom gerente gerencia bem, o bom cantor canta bem e o bom motorista dirige bem. E por aí vai.

Fazemos parte de várias engrenagens que funcionando bem fazem girar o organismo chamado sociedade. Sabiamente, entende-se que numa construção, por exemplo, o pedreiro não é menos importante que o engenheiro. A suposta mão-de-obra braçal é tão importante quanto a acadêmica. De que adianta projetar e não ter quem bem execute ? Cada um tem sua importância e deveria se valorizar e desempenhar com excelência o ofício que por ora lhe cabe. Por que fazer uma comida com tanto desdém se ela vai nutrir o corpo e a alma de quem vai comê-la ? Sim, a alma. Percebemos o que é feito com capricho e o que não passou de uma obrigação. Medir a importância das profissões pelo grau de escolaridade de quem as desempenha é tão superficial quanto achar que ninguém está vendo serviço mal feito para quem se julga ‘tão’ esperto.

Estou cansada de lidar com espertos... Posso escolher continuar a ser conivente com tanto descaso ou continuar em paz comigo e fazer valer meus direitos de consumidora e exigir qualidade daqueles que se propõem a prestar serviços. Aos espertos, ou melhor, os que pensam que o são, fica a dica. Sugiro que fiquem mesmo espertos, alertas. A concorrência bate à porta. E nós abrimos a quem nos mostra que somos importantes e respeitados como tal. Pagamento é resultado de serviço cumprido. Não é gorjeta, nem presente... ■

27 de abril de 2010

A VIDA PELA JANELA

Vejo a vida pela janela.
Vivo uma vida pela janela.

Do lado de lá eu sou.
Do lado de lá eu existo.

Lá eu tenho amigos,
lá eu tenho compromissos,
lá a vida acontece.

Lá os sonhos viram realidade,
lá os medos são compartilhados,
lá a vida é intensa e plena.

Doído será fechar a janela...
Doído será deixar a vida de lá vivendo sem mim.

Nada disso.
A vida lá acontece sem mim.
E acontecerá.
O vazio vai ser é do lado de cá. ■

22 de abril de 2010

ANIVERSÁRIO DE BRASÍLIA

Fiquei feliz em ver que a repercussão do cinqüentenário de Brasília foi celebrado à altura da capital do país. Fiquei surpresa ao ver que o mais famoso telejornal da maior emissora de TV veio mostrar cenários e personagens que simplesmente são representantes da Brasília além Esplanada que poucos conhecem. Fiquei emocionada ao ser separada das classes corruptas e corrompidas que enfeiam nossa cidade. Fiquei gratificada em assistir flashes e cliques de pipoqueiros, manicures, empresários, que foram apresentados como brasilienses de fato ou de coração.

Estou esperançosa de que a partir de hoje, quando todo o Brasil pode assistir ou ler que Brasília se estende além da Praça dos 3 Poderes, ou melhor, além do centro político-administrativo que gerencia nosso imenso país, possam todos os estados da federação não mais se esquecer que há vida decente na Capital. Que há trabalhadores que sequer puseram os pés na Esplanada.

Que o céu de Brasília possa continuar a encantar e a inspirar a todos que se dispuserem a enxergar essa cidade feita na ponta do lápis com olhos de contemplação.

Obrigada Juscelino. Obrigada pela ousadia, pela grandeza de ideais e pela coragem. ■

“... Céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim...”
(Djavan)

6 de abril de 2010

CALAMIDADE NO RIO DE JANEIRO

O Rio de Janeiro amanheceu alagado.
Imagens nos dão a idéia do que passaram na noite de ontem.
Gente saindo do trabalho ontem e voltando hoje sem ter conseguido dormir em casa.
Trânsito parado, carros tombados, árvores arrancadas.
É difícil ver de cá.
Nem imagino como foi estar lá naqueles momentos de desespero e total insegurança.
Pobres e ricos sem teto.
Empresários e mendigos ao léu.
Autoridades e anônimos sem poder fugir daquele pesadelo.
Transbordou o medo, o choro, a impotência diante da Lagoa, do Bondinho, do Cristo.
Meu Deus, consolo e coragem a todos eles.
Que abracemos em solidariedade ainda que distantes.
Silencio...
Amém.

2 de abril de 2010

O SABOR DA PÁSCOA

Pequenos, médios, grandes. Recheados de bombom, carrinho, boneca. Ao leite, amargo, branco. Ovos, ovos e mais ovos de chocolate enchem nossos olhos ao circularmos por aí nos dias que precedem a Páscoa. Mas, qual é o sabor da Páscoa ?

É amargo.O sabor da Páscoa é amargo. Segundo a crença cristã, a Páscoa simboliza o período de morte e ressurreição de Cristo. Carregou a cruz de madeira até o Calvário, lá foi crucificado e morto, e ressuscitou três dias depois. Amarga cruz sobre as costas, amargas feridas, amargas dores, amargo padecer lento e lancinante. Morreu por quê ? Diz a mesma crença que deu a vida em sacrifício para salvar a humanidade. Mártir do amor divino e eterno. Assim, fica até difícil conseguir saborear um pedaço de chocolate, a ser comido por culpa. Celebração pela dor do outro ? Mas Ele ressuscitou. Ressuscitou sem dor, sem sofrimento, para servir de direção àqueles que acreditam nessa história e se dispõem a esperar por Sua vinda. Assim fica mais doce...

Então é doce. O sabor da Páscoa é doce. No mundo capitalista e secular que vivemos, o sabor da Páscoa tem ficado cada vez mais doce. O comércio se veste de coelhinho e sai distribuindo ovos de chocolate pelos quatro cantos do mundo. E comemora as vendas. Mesmo com preços além das possibilidades da maioria da população assalariada, o comércio da Páscoa não fica atrás das outras datas comemorativas do ano. Detalhe: o bem de consumo da Páscoa – ovos de chocolate – é perecível e dura muito pouco dentro do pacote ou mesmo dentro da boca. Adoça a alma, traz prazer instantâneo. Mas ninguém raciocina diante de tanta oferta enchendo os olhos. Digo isso, pois os demais bens de consumo comercializados nas outras datas comemorativas são duráveis e convivem com a gente por longo tempo, por anos. Brinquedos, TV’s, calçados, celulares, peças de vestuário e maquiagem, por exemplo, não derretem na boca num piscar de olhos e esquecemos disso quando investimos cifras altas em meros pedaços de chocolate. Tão engraçado ver que ovos de Páscoa podem ser “financiados” em até 10x sem juros... Quando se quita a dívida nem se lembra mais da marca, sabor ou tamanho da iguaria. E o doce da Páscoa gera muitos empregos temporários, alimenta as indústrias, o marketing e as fábricas de sonhos que embalam o sono de crianças e adultos.

Além do gostinho gostoso dos ovos de chocolate, vamos saborear o significado de Ressurreição trazido pela Páscoa, mesmo nos dias que se sucedem à data. Que possamos ressuscitar sonhos ainda não realizados, relacionamentos perdidos ao longo do tempo, amor pela vida e frescor no dia-a-dia. Que nos lambuzemos de alegria, coragem e esperança para seguir sorrindo mesmo depois do último pedacinho de chocolate que restava na embalagem... Que aceitemos o desafio de aprender a adoçar a vida na beleza da sua simplicidade. ■

20 de março de 2010

DENOVAMENTE

Outra vez saí do tal do Orkut. Bom da história é que acho que ainda nem tinha voltado assim, direito mesmo. Daí, quando percebi já tava sem nenhuma vontade de continuar na tal rede dita social.

Curioso que tive conta por um ano, mais ou menos, e havia encerrado há uns dois. Nesse ínterim, papos vinham, papos iam e a perguntinha básica: “Você tem Orkut ?” Por uns tempos respondi firmemente que nem tinha mais, tampouco voltaria ao referido. Depois, me bateu uma vontadinha de voltar. E sou pessoa movida a vontadinhas que tomam proporções gigantescas em questão de segundos. Então voltei. Pouco mês se passou (porque foi um só mesmo) e duas razões me levaram a sair “denovamente” de lá. Uma, que não vi grandes utilidades em manter aquele espaço aberto. Outra, essa a mais forte delas, foi a pressão (que me saturou também da outra vez) de pessoas que não imagino em que planeta vivam e que insistem em querer ser adicionadas como “amigas”. Não sei se é o peso da palavra “amigo” associada a desconhecidos que pesa ainda mais nesses pedidos ou se é a solicitação repetida e cansativa. De-tes-to me sentir pressionada, cobrada e induzida a fazer o que minha pessoa nem cogita em realizar, concordar, deixar acontecer. E de quem nem se conhece, nem se quer conhecer ou faz-se questão de esquecer que conheceu um dia, então, nem se fala...

Fato é que continuarei a manter contatos embora virtuais, verdadeiros e realmente sinceros e afetuosos com que me interessa ou interessar possa, por e-mail, blog ou o bom e velho sinal de fumaça... Não vou afirmar categoricamente que não voltarei novamente a ter Orkut. Além de acreditar que “não” é uma palavra muito forte pro amor, pra medicina e pra vida, por detestar ser cobrada pelos meus atos, não quero ouvir a piadinha de que Vivianne disse que NÂO voltaria pro Orkut, né ?

O melhor dessa historinha toda é que não tenho medo de recomeçar, voltar, sair e vir de novo quantas vezes me der na telha. Os outros ? Continuam sendo sempre ‘os outros’. Assim, Orkut de novo ? É, quem sabe outra vez... ■

9 de março de 2010

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Ainda sinto o perfume das flores espalhadas ontem pelo mundo inteiro em homenagem às mulheres. Data mundial significa que, salvo raras exceções, mulheres também são mundiais em desejos, dramas, problemas e aspirações. Tudo igual. Igual na França, igual no Brasil, igual na China.

Acredito que o maior desafio da categoria seja conciliar tantos pontos de equilíbrio para conseguir se manter de pé sobre o eixo da vida. Somos muito cobradas pela vida. Somos cobradas pelo pai e pela mãe, quando crianças; somos cobradas pelo marido e pelos filhos, quando adultas. Ainda somos cobradas pelo chefe, pelos parentes, pelo espelho, pela balança etc.

Precisamos conciliar nossas profissões todos os dias. Digo profissões porque desde crianças precisamos nos habituar, em maior ou menor grau, à eterna rotina doméstica. Bom da história é que essa profissão de dona-de-casa é cargo vitalício que nos acompanha do berço à cova. (risos) Além disso, ingressamos nos disputados mercados de trabalho, concorremos com os homens e ainda não alcançamos o devido valor. Nós exercemos as mesmas atividades e não costumamos ver essa igualdade no contracheque no fim do mês...

Mulher é mesmo contradição. É antônimo. É sim e não quase ao mesmo tempo. Nos emocionamos assistindo comercial de margarina e derramamos as mesmas lágrimas na lancinante dor do parto. Damos gargalhadas com as amigas no shopping e corremos pra loja pra comprar um bom creme anti-rugas. Nos endividamos no cartão de crédito com mais uma pecinha de roupa e entramos em desespero com um convite de jantar de última hora quando nos deparamos com um armário “vazio”, sem nada pra vestir hoje à noite. Devoramos uma barra de chocolate e passamos o resto da semana comendo salada no almoço e no jantar...

Mulher é cheiro de perfume e batom, sim. Somos vaidosas, sim, mesmo e daí? Mas somos muito mais que um salto alto e uma bolsa. Somos amparo e força, mas somos carência e fragilidade também. Somos determinação e coragem, mas somos indecisão e medo também. Somos sabedoria e fé, mas somos insensatez e descrença também.

Às minhas amigas e a mim, desejo um restante de mês de março de reflexão sobre os verdadeiros significados e desdobramentos do que é ser mulher. Que busquemos e encontremos o equilíbrio sempre, pois esse é o segredo do sucesso para todas em todos os cantos do mundo. Que tenhamos a robustez do aço, para vencer as batalhas da vida. Mas, que não percamos a sensibilidade, a simplicidade e a singeleza das flores também. Assim, contraditório mesmo. Como diz o poeta, que sejamos “mulheres de aço e de flores”. ■

28 de fevereiro de 2010

DE QUAL LADO VOCÊ ESTÁ ?

Vi a entrevista de um sociólogo que me deixou pensativa. Muito se fala sobre mundo capitalista, sociedade consumista e já estamos de ouvidos saturados de escutar o blá blá blá em torno da figura majestosa do consumidor. O consumidor, rei que rege com suas vontades supremas e absolutas, mola propulsora da engrenagem do consumo desenfreado. Conta a lenda que é ele quem dita modas, que faz abrirem ou fecharem franquias, que leva marcas à ascensão ou à queda.

Fui surpreendida com o outro lado dessa mesma moeda. Falava o sociólogo que há os consumidores de fato e, para minha surpresa, há, também e em maior número, os consumidos. É mais fácil e simplista fabricar a imagem de uma figura plena de poderes que comanda o sistema capitalista como um todo. Mas a realidade é bem outra. O que dizer daqueles pais de família que se sentem impotentes por não poderem comprar o modelo de tênis recém-lançado daquela marca famosa para o filho adolescente que até ameaça abandonar os estudos se não tiver o desejo realizado ? O que dizer da menina que se depara com a realidade de que vai ter que estudar para terminar aquele curso técnico de telefonista e enfrentar a batalha da procura pelo primeiro emprego ao invés de continuar sonhando com a carreira de modelo e se espelhando naquela moça que estampa metade das revistas expostas na banca ?

Se fossem de fato consumidores não se esqueceriam de seus valores, seus gostos, seu poder e livre arbítrio. A angústia pela falta de dinheiro para consumir marcas, a necessidade de acompanhar a multidão que se veste igual, come igual e fala igual são reflexos que há mais consumidos que consumidores espalhados por aí. Não há muita indagação da utilidade da compra, da razão de tal comportamento. É impulso alimentado pelo semelhante ao lado. É incrível a popularidade do comércio pirata que dispara à frente do dito comércio legal. Não pode comprar a bolsa original da grife ? Não há problema... Tem uma “igualzinha” vendida no mercado informal e que custa a metade do preço... Esperteza ou aprisionamento ? São os reféns dos ditames da moda, que pensam ser consumidores, mas, de fato, são meros consumidos...

Nada contra o consumo. Muito bom desejar e poder satisfazer o desejo. Muito bom adquirir bons produtos e trazer praticidade e bom gosto ao dia a dia. O problema surge quando nos percebemos aprisionados aos ditames das tendências de moda e vamos violando nossos gostos e valores para nos reduzirmos a consumidos guiados pela cegueira do consumo desenfreado. Quero continuar consumindo por que quero. Liberdade e autenticidade urgente ! ■

23 de fevereiro de 2010

EXERCÍCIOS DE FELICIDADE 2

Refletindo sobre esse novo desafio de fazer exercícios diários de felicidade, cheguei à conclusão de que há desdobramentos no assunto... Luciana volta ao passado e revive a lembrança de bons momentos que foram um dia e ainda permanecem. Pensei que podemos ir além e nos exercitarmos no hoje e no amanhã também. Por que não?

Exercícios de felicidade para hoje
Que tal ouvir aquela música da qual tanto se gosta, por exemplo. Ou pegar o telefone e bater um papo com aquela amiga de longa data de quem só temos notícia por e-mail? Ou, então, que tal fazer aquela comidinha gostosa que muitas vezes é trocada por um rápido sanduíche? Ou ler um bom livro? Vamos investir mais horas do dia de hoje na nossa própria felicidade. E que sejamos sábios para encontá-la nos rituais e acontecimentos ordinários da vida. Na despretensão da simplicidade, na ilusão do contentamento, na respiração do minuto seguinte.

Exercícios de felicidade para amanhã
O futuro só será revelado no tempo certo. Isso é verdade. Mas o pensamento mais sábio é entender que o amanhã começa a ser construído no dia de hoje. Partindo dessa máxima, precisamos nos projetar no amanhã também. Viver com os pés no hoje e as idéias no amanhã. Mesmo porque, se não for assim, nada vai diferenciar a esperança que depositamos no amanhã de tudo o que nos desagrada no dia de hoje. Racionalizar o futuro é mais inteligente e coerente que apenas sonhá-lo. Sonho, quando se acorda, nos separa da realidade; ação, nos aproxima do que sonhamos.

Vou lá, continuar assistindo minha novela (...) e aprendendo um pouco mais nesse consultório informal de psicologia gratuita e, por vezes, eficaz. Vou me exercitando com a lembrança do ontem, a possibilidade do hoje e a esperança do amanhã.

Obrigada, Luciana... ■

18 de fevereiro de 2010

EXERCÍCIOS DE FELICIDADE

Não sou muito de assistir novela. Em geral, acho uma coisa cansativa, uns personagens que se repetem, expressando-se com frases igualmente repetitivas. Acho que conto nos dedos de uma mão só as novelas que realmente marcaram minha vida. Que eu dedicava aquele tempo diariamente para me sentar em frente à TV e acompanhar mais um capítulo.

E a história se repete... Estou encantada com as nuances da trama Viver a Vida, de Manoel Carlos. No meu caso, é quase redundante gostar da novela de Maneco. Dessas que guardo comigo, acredito que umas 99% foram inspiração desse mesmo autor. Então, todos os dias, desde 14 de setembro, lá estou eu me deleitando com a vida de cada personagem. Me envolvendo com uns, tomando partido de outros, me identificando além da telinha.

Anteontem, ouvi uma expressão muito boa que já incorporei ao meu vocabulário. A personagem Luciana, ex-modelo que se depara com a nova realidade de ser tetraplégica, contava a um amigo que tem buscado fazer todos os dias “exercícios de felicidade”. Curioso, ele perguntou o que significavam, como os fazia. E ela disse que ficava buscando na memória momentos bons de recordação que já passaram, mas que sempre a acompanharão ao logo de toda a vida. Comprei a idéia.

Todos temos arquivos fantásticos, inesquecíveis que fazem parte da nossa história de vida. Então porque deixá-los lá, empoeirados, relegados ao mero esquecimento se são inesquecíveis? Pode parecer uma boa terapia. Vou experimentar. Isso não significa se desligar do presente, ignorar os problemas, fingir que eles não existem. Mais que isso, é ter consigo doces lembranças de vida, de instantes que foram e ao mesmo tempo ficarão para sempre. Às vezes, a realidade é cinza. Por que não buscar aquela tarde naquele último dia de férias na praia, sentir de novo o cheiro, ouvir os sons que alegraram aquele momento? E o dia do baile de formatura, quando o nervosismo dificultava o equilíbrio sobre o salto, o estômago apertava na hora de levantar e pegar o diploma. Enfim.

Pelo que entendi, Luciana precisa aprender a encontrar a liberdade de ser feliz novamente mesmo fisicamente presa a uma cadeira de rodas. E ela tem buscado se lembrar do quanto a pessoa e a essência Luciana foram felizes antes dessa inesperada tragédia. Eu quero isso também. Quero aprender a viver da melhor forma o dia de hoje, mesmo sabendo que ele pode ser mais difícil do que eu esperaria que fosse. Quero lembrar que o ontem foi muito bom e, por isso, o hoje pode ser ainda melhor. Então, vou fazendo meus exercícios de felicidade, oxigenando o cérebro e libertando o pensamento para seguir em frente... ■

16 de fevereiro de 2010

VOLTEI

Depois de longos dias afastada desse espaço virtual, voltei. Incrível como o final de ano vai desacelerando a gente ao extremo de irmos pouco a pouco abandonando projetos ainda não bem consolidados. Se é por obrigação, vamos até o fim. Sobrevivemos aos 31 dias de dezembro e começamos janeiro seguinte apenas como uma folha virada no calendário. Mas quando o negócio é sem obrigação, a gente vai saindo de fininho, tentando recuperar o fôlego então perdido por 12 meses que se sucedem sabe Deus como...

Não é fácil. O mesmo cérebro, os mesmos neurônios, as mesmas pernas, o mesmo coração pra darem conta de tantos sentimentos desencontrados, tantas emoções incoerentes, tantos passos mesmo sendo alguns em falso. Penso que esse negócio de calendário foi inventado por algum bendito psicólogo, neurologista ou afim. Imagine se não houvesse essa ruptura? Ainda que fictícia, porque no dia primeiro de janeiro as dívidas, os problemas ou as alegrias não começam do zero. Não é como nos joguinhos de games que passamos pra outra fase e nossa bateria está recarregada igualmente com nossos estoques zerados. Mas, mesmo assim funciona. A gente compra agenda nova, passa a limpo o que vai continuar com a gente, tenta perdoar, busca pensar positivo e isso faz uma diferença danada...

Nem foi de caso pensado eu voltar por agora. Fiquei sem computador quase 30 dias (o que pareceu um longo ano) e só o resgatei semana passada. Não acredito em coincidências, mas estou de volta nesse finzinho de carnaval: justamente quando a vida da gente começa a andar de fato e todos têm que retomar os postos pra tocar em frente os próximos 10 meses que se seguem. Não prometo não abandonar o blog (porque também detesto promessas não cumpridas), mas vou me esforçar um pouco mais para que ele esteja no ar nas quatro estações de 2010. É uma maneira a mais de caminhar junto, de dividir o peso da mochila durante a caminhada. Então vamos. Outra vez... ■