28 de abril de 2010

O MUNDO É DOS ESPERTOS

Desde criança sempre escuto que “o mundo é dos mais espertos”. De uns tempos pra cá, estou assustada com a popularidade dessa frase. Nem me refiro a outros setores da vida. Fica minha queixa-desabafo simplesmente limitada à esfera profissional. E qualquer semelhança não é mera coincidência: se também acontece com você fico mais acompanhada nesse grito silencioso contra tanta demonstração explícita de ‘esperteza’ ao redor. Ah, e nem sou tão mais poupada de espertos à solta por não trabalhar fora, além dos limites da porta de casa. É verdade que nem posso me queixar da esperteza dos colegas de trabalho, pois não os tenho (risos), mas não me faltam representantes da espécie na padaria, no shopping, na farmácia e afins.

Tenho uma tese de que não se mede um serviço pela sua suposta importância ou falta dela. Afinal, tudo tem importância, tudo é necessário. Depende apenas dos olhos de quem vê. Como diz o poeta, “tudo vale à pena, se a alma não é pequena.” É isso. O problema deve estar no tamanho da alma das pessoas que se julgam tão espertas. A alma delas é tão pequena que sequer enxergam a grandeza de ser na pequenez, na simplicidade da vida.

É curioso porque essas pessoas que não dão importância ao ofício que exercem, geralmente sonham muito alto. Ou melhor, sonhar é para almas nobres, elas, sim, cobiçam muito alto. Daí não enxergam a imensidão de possibilidades ao redor. Açougueiro, diarista, pintor ? Profissões sem status social, pouca possibilidade de ascensão. Por isso, temos carnes mal cortadas, casas mal limpas e paredes mal pintadas. Será ? Penso de outro jeito. Sei que a mola, digo, a moeda do mundo é o dinheiro, o pagamento pelo serviço, pois todos temos dívidas a quitar. Penso que a qualidade na prestação dos serviços é uma responsabilidade que nada tem a ver com a natureza do tal. O bom profissional é bom naquilo que faz. O bom gerente gerencia bem, o bom cantor canta bem e o bom motorista dirige bem. E por aí vai.

Fazemos parte de várias engrenagens que funcionando bem fazem girar o organismo chamado sociedade. Sabiamente, entende-se que numa construção, por exemplo, o pedreiro não é menos importante que o engenheiro. A suposta mão-de-obra braçal é tão importante quanto a acadêmica. De que adianta projetar e não ter quem bem execute ? Cada um tem sua importância e deveria se valorizar e desempenhar com excelência o ofício que por ora lhe cabe. Por que fazer uma comida com tanto desdém se ela vai nutrir o corpo e a alma de quem vai comê-la ? Sim, a alma. Percebemos o que é feito com capricho e o que não passou de uma obrigação. Medir a importância das profissões pelo grau de escolaridade de quem as desempenha é tão superficial quanto achar que ninguém está vendo serviço mal feito para quem se julga ‘tão’ esperto.

Estou cansada de lidar com espertos... Posso escolher continuar a ser conivente com tanto descaso ou continuar em paz comigo e fazer valer meus direitos de consumidora e exigir qualidade daqueles que se propõem a prestar serviços. Aos espertos, ou melhor, os que pensam que o são, fica a dica. Sugiro que fiquem mesmo espertos, alertas. A concorrência bate à porta. E nós abrimos a quem nos mostra que somos importantes e respeitados como tal. Pagamento é resultado de serviço cumprido. Não é gorjeta, nem presente... ■

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