31 de outubro de 2009

PRECISO APRENDER A CALAR A BOCA

Tenho uma mania, ou melhor, um defeito que muito tem me incomodado: a falta de domínio da língua. Não é de nenhuma língua estrangeira. Ah, se fosse... E da língua mesmo, órgão que carrego comigo, por trás dos dentes e bem no meio da boca.

É bem verdade que desde criança sempre fui faladeira. Uma vez, esse defeito ficou bem evidente, tipo carimbo em mim. Estava na segunda série e era aluna de uma professora não muito didática tampouco adepta dos meios de educação aliados à psicologia. A bendita professora enumerava com a lista de chamada nas mãos os nomes do alunos e as disciplinas em que deveriam se dedicar com mais afinco nos estudos: “Fulano, você precisa melhorar em matemática, por exemplo”. E eu, com minha língua solta, ao não escutar meu nome ser pronunciado após a última letra do alfabeto, tive a brilhante idéia de me dirigir até a mesa dela e perguntar em que eu deveria melhorar. A resposta foi sonora, não muito agradável e voltei cabisbaixa e engolindo um choro seco quando escutei: “Na língua é que você deve melhorar, porque fala demais.” Sentença ? Não sei. Mera previsão ou profecia ? Quem dirá ?

O fato é que tenho percebido que minha língua anda solta no que não deveria: a vida alheia. Não é que faço fofoca, revelo segredos, nada disso. Tenho percebido que um dos meus piores defeitos (ou que muito tem me incomodado) é dar pitaco na vida dos outros. Na hora, na conversa, no desenrolar do diálogo, com amigo, parente e afins eu dou minha opinião, falo o que penso daquele assunto. Daí, menos de cinco minutos depois eu me arrependo por sair dando receitas de vida, fórmulas de cotidiano, emitindo juízos etc. O pensamento que me ocorre é: “Meu Deus, quem sou eu para entrar na vida dele ou dela sem ser solicitada”. Nem sei se realmente tenho incomodado esses terceiros, se tenho causado aborrecimentos com minha inoportuna e invasiva opinião. Refletindo sobre isso, decidi que não devo me manifestar em casas, vidas e lares de terceiros a menos que seja solicitada. Diz o sábio ditado que cada macaco deve ficar no seu galho. Quem penso que sou ou que direitos tenho para chegar sem ser solicitada e começar a dar minhas consultas, consultorias e julgamentos ? Dizem, também, que quando colocamos as coisas no papel o nosso compromisso com elas aumenta, toma corpo além das letras. Que seja assim. Botando o ponto final nesse texto, começo a me comprometer comigo para me libertar desse vício e me ocupar de dar opinião em quem realmente precisa escutar meus conselhos: eu. A me ocupar em querer dar jeito na única vida que me diz veramente respeito: a minha. Que eu me sacrifique para aprender a usar os meus ouvidos e aposentar minha bendita língua... Amém. ●

16 de outubro de 2009

CHEGOU PRA FICAR

Deus não se cansa de nos surpreender. Quando menos esperamos, de onde menos imaginamos vêm mimos do Céu pra acrescentar coisas boas na nossa vida. É bem fato que muitas vezes, imersos na correria do dia-a-dia podemos não nos dar conta das coisas e pessoas especiais que acontecem ao nosso redor. Mas com um pouquinho de boa vontade e sabedoria podemos perceber raios de luz celeste brilhando bem do nosso ladinho...

Tempos atrás, mais precisamente há um ano, Deus resolveu me presentear com um mimo que vou levar pra vida toda. Ganhei um irmão mais velho. Irmãos desses de coração, de alma, que a vida às vezes põe na nossa vida, pra ajudar na caminhada. Um presente em forma de gente.

Muito engraçado, porque há pessoas que estão no nosso convívio todos os dias e pouco ou nada fazem de diferença em nós. Sei que a recíproca também é verdadeira e muitas vezes nada acrescentamos também àqueles que nos rodeiam. Não gosto de culpa, nem de cobrança. Acredito, sim, nos encontros de almas, em vidas que caminham lado a lado por cumplicidade de idéias, proximidade de objetivos etc. Eu e esse meu irmão mais velho, nem nos conhecemos pessoalmente. Conhecimento de longe, aproximado graças à fantástica diminuição das distâncias promovida pelos meios de comunicação, principalmente a internet. Tenho aprendido muitíssimo com ele. Aprendido a lutar de pé, mesmo quando as coisas ruins da vida quase nos prostram no chão. Aprendido a acreditar mais em mim e esperar menos do escasso tempo dos outros. Aprendido que somos os responsáveis pela maneira como vamos conduzindo o timão do barco da nossa vida. Aprendido até que é melhor rir do que não dá certo e seguir em frente, pra não impedir que o movimento da vida aconteça. O devir das coisas. Como é bom trocar experiências de vida com quem já viveu do melhor e do pior. Com quem escolhe acolher o pior para crescer como pessoa e extrair o melhor disso. Com quem aprende a se superar por si a cada manhã. Focar nas possibilidades do hoje.

Nossa, eu fico muito agradecida a papai-doCéu por me aumentar assim, sem me avisar, a minha família do coração. Por agregar parentes que não têm meus laços de sangue, mas que me fazem pulsar melhor. Querido, saiba que você chegou pra ficar. Já tem lugar de honra nas acomodações do meu coração, viu ? Vamos juntos, assim, família de Cristo... ●

6 de outubro de 2009

APENAS ME CALO

Quando não consigo resolver os problemas ao meu redor,
quando não consigo compreender os acontecimentos do dia a dia,
me ponho diante de Deus,
e apenas me calo.

Me calo não porque me falte a voz.
Me calo porque preciso acreditar
e aprender a confiar que tudo está nas mãos Dele.

Mãos que afagam,
mãos que levantam,
mãos que sustentam.

Apenas me calo,
porque escolho viver a promessa de que Ele vela por nós.
Escolho crer que tudo o que acontece aqui
tem um propósito maior vindo dos altos Céus.

Por isso, por não entender o que acontece,
por que assim acontece,
apenas me calo. ●

CONHEÇO OS TONS REAIS

Só quem já provou a dor,
quem sofreu, se amargurou,
viu a cruz e a vida em tons reais.

Engraçado como certas frases parecem que foram escritas por outra pessoas diretamente pra gente. Essa música me diz muito além da aparente significância desses versos. Não é à toa que quando os escuto, cada vez que isso acontece, me perco nos meus pensamentos e me passam na mente vários flashes do filme da minha vida. Certamente, o autor também trouxe à memória pensamentos e lembranças quando se debruçou sobre o fantástico mundo das palavras e conseguiu traduzir nessas poucas linhas o sentimento mais agudo e universal aos seres humanos: a dor. De dor não se fala quando não se sente, não se conhece. Com muita boa vontade e alta dose de generosidade, consegue-se aproximar da imaginação e tentar descrever aquilo que só tem propriedade para falar quem já sentiu na carne da pele, do físico, ou na carne do coração, do emocional da coisa.

Parece redundante, mas é muito doído sentir dor... Machuca mesmo, mina forças, quando lateja a alma da gente. Tão doído quanto a dor física é a dor de sentir dor sozinho, na frieza da solidão. Quando não se tem a companhia daqueles por quem se teve tanta estima, ao longo dos dias de festa, quando as coisas “andavam bem”. Quando se vê sozinho, velando pelo sono de um querido, que repousa suas mazelas num leito de hospital, e aquela madrugada não acaba, e aquele telefone não toca, e aquela visita confortante nunca chega. E você, num ato de desespero, de grito daquele silêncio maçante que sufoca, pega o telefone pra dividir aquele peso que sufoca a alma. E numa inesperada decepção ouve do outro lado planos, convites pra saídas e tudo o que não imaginara ouvir, coisas das quais você não pode fazer parte. Conheço essa realidade. Sou sobrevivente dela... E quando passa o turbilhão, e as águas começam a serenar, e a gente ainda está naquele torpor de decepção.

Por isso, só quem já provou a dor, sofreu e se amargurou viu o tom real da vida. Carregou o indesejado peso da cruz. Meu Deus, como é duro carregar a cruz sozinha... Levantar, com os joelhos trôpegos e sair cambaleando para lá e para cá, tendo que dar conta de mais um dia. De vários dias. E seus “amigos”? Ah, de balada em balada, de churrasco em churrasco, de show em show, vivendo uma vida alheia à sua, se ocupando das futilidades da vida. E você lá, relegada, comendo comida ruim, dormindo numa cadeira desconfortável, longe da sua própria vida, amparada por você mesma.

Fiz vários testes. Aprovada em uns, reprovada noutros, mas freqüentando regularmente os bancos da escola da vida... Aprendi no frio da madrugada que podemos contar com poucas pessoas na hora da dor. Contar mesmo, de verdade. Aprendi que preciso descobrir forças em mim mesma, porque os outros não costumam ter tempo pra mim. Aprendi que amigos pra passear são muitos, mas pra visitar em hospital nem quase existem. Muitos daqueles que freqüentam minha casa não quiseram freqüentar aquela casa fria, de paredes que guardam lágrimas. Tem uma pessoa muito especial precisando dos meus cuidados e naquele momento sou Jesus na vida dela. Ela também é Jesus na minha. Me ensina a carregar a cruz e me ajuda naquilo que pode. Me ajuda com um sorriso de superação, de luta pelo bem maior que é a vida. Os outros? Continuarão sendo sempre os outros. Ainda mais quando os percebo bem mais distantes do que eu os imaginava... ●