Vi a entrevista de um sociólogo que me deixou pensativa. Muito se fala sobre mundo capitalista, sociedade consumista e já estamos de ouvidos saturados de escutar o blá blá blá em torno da figura majestosa do consumidor. O consumidor, rei que rege com suas vontades supremas e absolutas, mola propulsora da engrenagem do consumo desenfreado. Conta a lenda que é ele quem dita modas, que faz abrirem ou fecharem franquias, que leva marcas à ascensão ou à queda.
Fui surpreendida com o outro lado dessa mesma moeda. Falava o sociólogo que há os consumidores de fato e, para minha surpresa, há, também e em maior número, os consumidos. É mais fácil e simplista fabricar a imagem de uma figura plena de poderes que comanda o sistema capitalista como um todo. Mas a realidade é bem outra. O que dizer daqueles pais de família que se sentem impotentes por não poderem comprar o modelo de tênis recém-lançado daquela marca famosa para o filho adolescente que até ameaça abandonar os estudos se não tiver o desejo realizado ? O que dizer da menina que se depara com a realidade de que vai ter que estudar para terminar aquele curso técnico de telefonista e enfrentar a batalha da procura pelo primeiro emprego ao invés de continuar sonhando com a carreira de modelo e se espelhando naquela moça que estampa metade das revistas expostas na banca ?
Se fossem de fato consumidores não se esqueceriam de seus valores, seus gostos, seu poder e livre arbítrio. A angústia pela falta de dinheiro para consumir marcas, a necessidade de acompanhar a multidão que se veste igual, come igual e fala igual são reflexos que há mais consumidos que consumidores espalhados por aí. Não há muita indagação da utilidade da compra, da razão de tal comportamento. É impulso alimentado pelo semelhante ao lado. É incrível a popularidade do comércio pirata que dispara à frente do dito comércio legal. Não pode comprar a bolsa original da grife ? Não há problema... Tem uma “igualzinha” vendida no mercado informal e que custa a metade do preço... Esperteza ou aprisionamento ? São os reféns dos ditames da moda, que pensam ser consumidores, mas, de fato, são meros consumidos...
Nada contra o consumo. Muito bom desejar e poder satisfazer o desejo. Muito bom adquirir bons produtos e trazer praticidade e bom gosto ao dia a dia. O problema surge quando nos percebemos aprisionados aos ditames das tendências de moda e vamos violando nossos gostos e valores para nos reduzirmos a consumidos guiados pela cegueira do consumo desenfreado. Quero continuar consumindo por que quero. Liberdade e autenticidade urgente ! ■
28 de fevereiro de 2010
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