Esse negócio de sentimento é complicado... Por que umas pessoas se atraem umas pelas outras? O que nos faz fitar os olhos em um determinado alguém? Até aqui não acredito que os opostos se atraem. Não consigo imaginar como o que de tão contrário enxergo no outro possa me completar e a ausência disso me fazer falta. Comigo não funciona assim. Então, o que me atrai, por que me atrai? Acredito, sim, que enxergo no outro alguma coisa de que gosto e não a vejo em mim. Pode ser que exista, mas esteja lá, tão escondida que eu ainda não a tenha localizado, descoberto nos recônditos do meu ser. Quem sabe, eu ainda não tenha encontrado a chave que faça abrir esse compartimento ainda não visitado.
Quero aprender a enxergar no outro o que me faz falta e arregaçar as mangas para procurar isso em mim, sem pressa, até encontrar. Afinal o que está no outro é literalmente do outro. Me atrai, me completa por uns momentos, mas continua ausente em mim. É fugaz. Por isso, não quero mais ter preguiça de cavar meu próprio poço, pescar meu próprio peixe. Posso até aceitar o anzol emprestado, mas não vou mais aceitar o peixe já frito...
Esse negócio de atração é complicado... Às vezes, a gente nem percebe, alguém chega de mansinho, pega a tal da chave e vai passeando por esses recônditos quando bem quer. Chave nas mãos, entra e sai quando bem entende e a gente nem dá falta da tal chave. Mas isso não é o pior. Pior ainda é quando a gente mesma pega a fatídica chave, entrega nas mãos de alguém que a deixa desleixadamente por aí, não dando importância pra esse elemento de acesso ao nosso ser mais íntimo. Daí, certa hora, a gente resolve pegar a chave de volta, pra botar ordem na casa. Para nossa surpresa, a pessoa responde despreocupadamente que não se recorda nem de ter recebido a dita chave... Culpa dela? Não. Culpa nossa, mesmo. Aí, pra recuperar essa chave... É uma dor de cabeça danada. Vai a gente procurar nossa identidade por aí, sem saber nem mais como bem era ou se era ainda alguém...
A maturidade nos estimula a acordar pra vida e não deixar o tempo passar irresponsavelmente. A idade que se foi nos leva a inocência e nos alerta de que somos diretamente prejudicados pela nossa omissão por nós mesmos. Quero sempre ter as minhas chaves em minhas mãos. Daí, vou entregando a quem achar que devo e tomando de volta com a mesma autonomia. São minhas as chaves. Do meu coração e da minha vida todinha, mesmo. Não quero mais esse negócio de ir deixando as chaves por aí, em mãos alheias quaisquer. De ir entregando meus tesouros em mãos que não se interessem em lapidar meus diamantes, em tirar a poeira das minhas pérolas.
Sou amante da gratuidade dos afetos, mas dou um valor danado ao zelo. Ao cuidado amoroso, à atenção revigorante. Quem pega minhas chaves e as deixa por aí, esparramadas em lugares quaisquer, apenas me mostra que esse é o lugar ocupo: um qualquer. Mas também só as pega uma vez. Não quero mais qualquer coisa, tampouco ocupar qualquer lugar. Quero ser eu, na minha completude, com todas as minhas possibilidades e limitações. Com minhas poeiras e pérolas. Aos displicentes de plantão, fica o aviso: de vez em quando troco minhas fechaduras... E de antemão já aviso: as minhas chaves sempre estarão nas minhas mãos. ●
18 de setembro de 2009
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Um comentário:
Falou tudo! Do jeito que eu qria dizer! Mas meu texto será mais amargo, como sempre... acabo não medindo palavras e falando demais.
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