Quero deixar aqui registrada a minha predileção e meu respeito por uns profissionais que são tão desprezados na nossa sociedade: os garis. Vejo por aí muitas pessoas reclamando por tão pouco. Amarram a cara o dia todo todos os dias porque são secretárias, médicos, advogados, empresários, donas-de-casa. Reclamam porque passam o dia atendendo telefone, atendendo paciente, lavando louça etc. O que dizer dos garis? Passam o dia inteiro, todos os dias, ano após ano correndo atrás de um caminhão de lixo. O que é lixo? É resto, sobra, descarte, dejeto. Meu Deus, como pode uma pessoa sair de casa disposta a correr horas a fio atrás de um caminhão que exala cheiro fétido. Além disso, tem outro lado ainda pior: o psicológico. Ser discriminado, confundido com a carga do caminhão. Imagine um gari ao fim do dia. Mãos impregnadas do cheiro que ultrapassa a aspereza das luvas. Pernas cansadas de correr atrás do que queremos nos livrar. Olfato judiado por tanta podridão. E olhos marejados pelo desprezo de quem se esquece que gari também é gente...
A profissão de gari é uma profissão corajosa e nobre. É preciso muita auto-estima para não se deixar confundir com toda aquela imundície. É preciso esquecer-se dela quando chegar o fim da jornada. O trabalho dos garis é indispensável. Imagine se todos eles resolvessem mudar de profissão ou se sentissem aborrecidos pelo desdém social e cruzassem os braços. Quem já leu ou assistiu a obra Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, me compreende melhor. Caoticamente, a vida seguiria sem a contribuição valiosa dos nossos amigos cor de laranja. Curvemo-nos respeitosamente diante desses profissionais que ainda não têm seu valor reconhecido no salário, tampouco nos olhos embaçados da sociedade. Que eles tenham a graça de aprender a enxergar além do caminhão de lixo. Que possam se encorajar sempre a acreditar que o valor do ser humano está na essência do que se é e não do que se tem ou quanto se tem. Desejo isso. Que corram atrás de um caminhão de sonhos, esperanças, amor próprio todos os dias. E que a carga contaminada do lixo que produzimos não lhes pareça mais que uma metáfora da verdadeira condição humana: o fim de ser pó. ●
25 de agosto de 2009
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